Arquivo do mês: outubro 2016

Parecer da VEIO libri – assessoria e consultoria editorial, sobre “Buraco da Fechadura”, solicitado pela editora Record.

VEiO libri

 assessoria e consultoria editorial

 produção de textos

 

Parecer de leitura

Cliente: Record

 

Buraco da Fechadura

Cynthia Kremer

166 páginas

03/10/2016

 

 

Recomendamos o original para a publicação.  São crônicas que abordam temas diversos desde culturais como comentários de filmes, temas pessoais, familiares, amorosos, existenciais, cosmológicos e físicos etc…   Problemas da cidade também são discutidos, como em Cariocas: drogados passivos (p.66) e questões religiosas em Sobre fé (p.130) e Ainda sobre fé(p.133).  Em Nem na Morte somos iguais (p.116) reflete sobre a questão do poder e do dinheiro e em A Lei de Jante (p.106) sobre a questão de valores.  Também discorre sobre os relacionamentos na Internet em Redes Sociais: hiperexposição narcisista (p.110).  Questões polêmicas como o direito à morte são ressaltadas em O direito à vida e também à morte (p.136).  O estilo é coloquial e direto, próprio do gênero.  Há dois textos que causam estranhamento por serem cópias de outros textos e livros: Superego, Avatares e Personas (p.71) e Sequestro Emocional ( p.95).  Gerald Thomas escreve o Prefácio, em que destaca ser um “livro de pequenas crônicas anacrônicas recheado de pérolas” (p.6).  O último texto é uma transcrição de trechos de diálogos ocorridos na Internet entre Thomas e Cynthia, em que expõem suas irritações pessoais, mas também as suas admirações de um pelo outro.   O original é corajoso e agradável de se ler.

 

 

Na breve Apresentação, Cynthia registra que o texto expressa sua vontade de partilhar histórias vividas ao longo de uma jornada que, às vezes, lhe parece rica, mas, em outros momentos, dotada de um grande vazio.

Gerald Thomas, no Prefácio, faz uma declaração de amor.  Repara que nunca fez apresentação etc… de alguém que não conhece, mas logo se corrige e diz que agora conhece: “E COMO!” (p.5).  Chama-a  de “alma colérica” (p.6), com quem teve brigas homéricas via e-mail.  Ameniza o ocorrido e ressalta que nada mais eram do que uma “dodecafonia de Schoenberg um Pierrot Lunaire, um Moses und Aron, um ser tentando encaixar o outro, uma voz tentando entender o desentendimento da outra voz” (p.6).  Repara que Cynthia escreve como “uma psicanalista resignada a olhar por um buraco da fechadura as suas próprias neuroses…” (p.7).  Destaca frases polêmicas de algumas crônicas e diz ser um livro “erótico e amável” (p.8).

Copacabana, berço da civilização ocidental (p.15) abre o texto e conta uma história escutada na sua adolescência, uma das” muitas lendas de amor” (p.16) de Copacabana, que, segundo Cynthia, daria um conto nas mãos de Rubem Braga.  Comenta o hábito de uma senhora que frequentava a extinta Confeitaria Colombo de Copacabana, diariamente, e às segundas, quando fechava, ia para a Colombo do Centro.  Era o lugar que ela e o noivo, na verdade um homem casado, frequentavam furtivamente. Depois que ele morreu, ela manteve o hábito como se ele fosse comparecer ao encontro.  A história é delicada.

Tipos e ocorrências famíliares são objetos de crônicas bem-humoradas.  Tu és a primeira mula que me rejeita estribo (p.21) foi a observação delicada feita pelo tio, aos 18 anos, quando recebeu uma negativa de uma moça para dançar em uma festa.  Comenta cenas engraçadas ocorridas numa noite no teatro da Praia, vazio, que pertencia a um dos seus tios, entre pessoas de sua família no palco.  Em Ai tarado, filha da puta (p.23) conta um fato que assistiu nas ruas de Copacabana, quando ela passeava com a mãe, que levava nada menos que uma oncinha numa bolsa, e a tia.  Em determinado momento, a tia grita tarado por acreditar que um homem a beliscara.  Na verdade, Cyntia, que estava atrás, vira tudo.  Foi o tucano de uma senhora que a bicou; o pássaro passeava também dentro de uma bolsa levada por uma senhora.

Filmes são objetos de comentários como em Nunca  te vi, sempre te amei (p,34), em que discorre sobre o enredo do filme e diz poder se apaixonar por alguém que escreva bem, com humor, eloquência e espírito.  Em Lady Hawk – Feitiço de Áquila (p.60) descreve o tema do filme, inspirado numa lenda do século XII, e recomenda que todos vejam.

Em Cariocas: Drogados Passivos (p.36) desenvolve uma tese em cima da ideia do fumante passivo.  Acredita que os cariocas são drogados passivos porque sofrem diretamente as consequências provocadas pelas drogas indiretamente: a violência insustentável.  De forma coloquial, observa “Mas espera aí…O tráfico existe porque existe demanda de drogas” (p.36).  Questiona porque os usuários são colocados na posição de vítimas.  Critica as passeatas a favor da paz, sem eficácia.  E acrescenta desconfiar  que muitos saiam dali para comprar drogas.  A liberação das drogas seria a única forma de acabar ou diminuir a violência decorrente do tráfico.

O curioso título 21 gramas de incertezas (p.39) paródia o título do filme 21 gramas.  Discute a questão da alma, uma das perguntas ainda não respondidas pelos cientistas, segundo uma matéria da revista Isto é.  Diz se identificar com a teoria do neurologista Gilberto Fernando Xavier, que diz ser a alma o conjunto dos neurônios do cérebro alimentado pela formação cultural e outras informações que um indivíduo adquire durante a vida.  Pergunta se o que é chamado de alma não poderia ser a própria psique, a essência do que somos.  Com humor, atenta não acreditar em reencarnação, mas por uma questão matemática do que filosófica.  Pergunta-se se hoje há mais demanda de almas porque existem mais corpos de onde viriam as novas almas.  Em Superego, Avatares e Personas (p.69) refere-se ao filme Persona como um obra-prima para a compreensão da psique humana por instigar o espectador a se identificar entres as muitas facetas representadas.  De maneira interessante, relaciona o tema do filme com o que se vive hoje com o fenômeno da hiperexposição narcisista através da Internet: a possibilidade de se usar avatares para a construção de inúmeras identidades.  Sugere que, embora com temas diferentes o centro do filme Avatar é a demonstração do que será a Persona Virtual num futuro próximo. A seguir transcreve um longo estudo (p.71-81) sobre o filme, retirado do site www.cinematografico.com.br.

Sequestro Emocional (p.95) é outro texto instigante por transcrever um longo ensaio de Kant (p.95-105), retirado do site ateus.net, sobre esclarecimento, que é a saída do homem de sua menoridade. A autora faz um comentário inicial em que qualifica de fantástica a abordagem.  Aponta ser uma interpretação sobre o ‘sequestro emocional’ e seus diversos aspectos do que chama de “ato quase terrorista no âmbito de ter para si a posse de alguém, através da manipulação e do poder” (p.95).

Trata também de questões religiosas.  Em Sobre fé (p.130) transcreve uma resposta sua, não publicada pelo jornal O Globo, a uma matéria sobre o pedido da família de uma moça italiana, que vivia em estado vegetativo há anos, para ser desligada dos aparelhos.  O Estado era contra desligar os aparelhos.  Na resposta, Cynthia critica as carolas de plantão que acham que Deus só é responsável pelas coisas boas do planeta e não pelas coisas ruins.  Para ela as religiões só atrapalham e todo Estado deveria ser laico.  Não acredita na existência de uma força superior, mas sim em valores éticos e morais adquiridos ao longo da vida.  Continua suas reflexões a respeito em Ainda sobre fé (p.133) e comenta sobre o incômodo de algumas pessoas ao descobrirem que ela é agnóstica.

Discute a questão do direito à morte em O direito à vida e também à morte (p.136).  Declara que todo ser humano tem o direito inalienável de dar fim a sua própria vida, se assim desejar.  Critica aqueles que fazem do suicida um caso a ser escondido, a vergonha de uma família.  Acredita que esta atitude é o resultado de muita culpa acumulada, muito preconceito arraigado e estimulado pelas religiões.  Desesperadora é a situação dos doentes terminais que não têm o direito de acabar com o sofrimento físico e emocional e, assim, morrem aos pouquinhos num sofrimento interminável para eles e suas famílias.

O conjunto das crônicas tem um caráter amplo.  Discute também questões cosmológicas.  Em O nada absoluto (p.118), anota que os cientistas ainda não chegaram a um acordo a respeito do que seria formada a matéria escura e como ela interfere no universo.  Repara que a antimatéria, o nada, é apenas onde podemos chegar neste momento por falta de capacidade de traduzir o nada absoluto.  Declara ser possível que a antimatéria seja mais palpável e tenha um papel dinâmico no universo e nos próprios indivíduos.

A autora se revela e expõe hábitos cotidianos em algumas crônicas.  Em Lua, Lua (p.17) observa ser uma mulher lunar porque vive na noite, quando é mais produtiva e atenta.  De maneira cômica, registra que desde pequena tem a sensação de que “todos os chatos vão dormir cedo.  Assim como os escoteiros, não fumantes, crentes, adeptos da vida saudável a todos os seres aborrecidos da mesma linhagem” (p.17).  Com vigor registra não ser solidão caso alguns pensem assim, mas paixão pelo clima diverso, pela quietude das coisas etc…  Transcreve o poema Nox (p.19) de Antero de Quental, também um amante da noite, que seria seu tio-trisavô.  Em O incrível Paulo Francis (p.25), a partir de um vídeo muito engraçado que assistiu de Paulo Francis, enumera as coisas que a irritam: quem não gosta de bicho, comida japonesa, marcar algo com antecedência, a voz da Xuxa e a do Faustão, dupla sertaneja, palavras da moda como releitura, orgânico etc…  Finaliza reconhecer que é neurastênica.  Em Querer é poder (p.89), faz considerações, de forma bastante crítica, a respeito da frase “quando você quer muito algo, o universo conspira em seu favor!” (p.89), que diz ser uma “frase medíocre” de livros de auto-ajuda.  Repara ser um tipo de declaração que leva os crédulos e desesperados a crerem que isto é uma verdade absoluta. Diz que a frase rasa e sem conteúdo é atribuída a diversos escritores, dentre eles um brasileiro.

No último texto, Gerald Thomas e eu (p.157), Cynthia conta como conheceu Thomas, precisamente em uma rede social da internet.  Repara ser ele muito mais que o estereótipo do artista culto e intelectual divulgado pela mídia.  Considera-o gentil, sagaz, com um humor inteligente, mas sobretudo autêntico e desprendido.   Transcreve trechos de e-mails escritos entre os dois, em que brigaram.  Reconhece que foram brigas geradas de banalidades e de interpretações diferentes que um fazia da escrita do outro (p.158-165).  No mínimo é curiosa a exposição dos desentendimentos entre os dois.  A última frase do texto é : “Nunca te vi sempre te amei” (p.165).

Segundo as notas biográficas, Cynthia tem um blog, que foi destacado como um dos melhores blogs/sites do Brasil.   O original é um conjunto de crônicas que reflete e discute ideias com perspicácia e humor.  Bem escrito, os pequenos textos instigam o leitor.

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